Josemir Lemos: o mestre que ensinou os monstros a temerem o silêncio

Josemir Lemos pertence a uma rara linhagem de autores que viajam entre a Literatura e a Educação. Escritor independente e professor do Ensino Fundamental, ele converteu a experiência cotidiana da sala de aula em literatura infantil de singular delicadeza, e o fez com tamanha sensibilidade que Os Dez Monstrinhos ascendeu à condição de obra finalista do Prêmio Literário ECOS da Literatura 2025, onde alcançou o primeiro lugar na categoria de Melhor Livro Infantil.
A gênese da obra é, por si só, uma pequena lição de pedagogia e de poesia. Em uma turma do primeiro ano, diante da agitação própria da infância, o professor Josemir concebeu pequenos monstros de lã, destinados a acalmar os alunos. A engenhosa dinâmica operava por inversão: não eram as crianças que temiam as criaturas, mas as criaturas que se assustavam com o barulho e que somente se mostravam quando reinavam o silêncio e o respeito.
Nesse gesto aparentemente simples reside uma inteligência admirável. Em vez de impor a disciplina pela autoridade, ele a converteu em jogo; em vez de reprimir o tumulto, transfigurou-o em narrativa. O medo, tantas vezes instrumento de coerção, tornou-se, em suas mãos, motivo de brincadeira, de acolhimento e de aprendizado. Eis a marca do verdadeiro educador: aquele que transforma a necessidade em arte e a arte em formação.
Dessa vivência nasceu uma narrativa vibrante, ambientada no fictício Planeta Master, território de brincadeiras de roda e de partidas de futebol, onde a infância se reconhece em sua própria alegria. A escolha do cenário revela fino senso de linguagem: o autor sabe que a criança habita o lúdico com a mesma naturalidade com que o adulto habita o raciocínio, e por isso edifica um mundo no qual o imaginário e o cotidiano se enlaçam sem esforço.
Cada um dos dez personagens carrega o nome de um algarismo, do zero ao nove. Trata-se de recurso engenhoso, pelo qual o aprendizado numérico se insinua na trama com discrição, sem o peso didático que tantas vezes enfara o pequeno leitor. A matemática, geralmente percebida como austera, ganha rosto, nome e personalidade; deixa de ser abstração para tornar-se companhia. O leitor aprende, mas não percebe que aprende, e é exatamente nisso que consiste a mais elevada pedagogia.
Quando o grupo decide reunir-se para construir uma nave e embarcar em uma jornada de exploração pelo espaço sideral, a narrativa atinge o seu ímpeto aventureiro. O cosmos, território tradicional do assombro, oferece à criança o convite à curiosidade e ao sonho. Ao conduzir os monstrinhos pelos caminhos das estrelas, o escritor propõe, sem pronunciá-lo, que o conhecimento é também uma viagem e que a cooperação é o combustível das grandes travessias.
Importa sublinhar que a construção coletiva da nave não é detalhe fortuito. Dez criaturas distintas, cada qual com sua identidade, unem esforços em torno de um propósito comum. A lição, de rara atualidade, ensina às crianças que a diversidade não é obstáculo, mas riqueza, e que o êxito de um empreendimento depende da participação de todos.
Para além do encanto narrativo, Os Dez Monstrinhos trabalha temas de grave importância na formação humana: o medo, a empatia e a aceitação das diferenças. Fá-lo sem solenidade excessiva, sem moralismo, com a leveza própria de quem confia na inteligência afetiva da criança. Ao subverter o medo infantil e revelar que até os monstros se assustam, o autor oferece ao pequeno leitor um espelho generoso: ele aprende que o temor é sentimento comum a todos, que pode ser acolhido, compreendido e superado.
Há, nessa inversão, verdadeira sabedoria psicológica. A criança que se vê no lugar de quem causa o assombro descobre o poder de suas atitudes e a responsabilidade que delas decorre. O silêncio, antes imposição, torna-se gesto de cuidado; o respeito, antes regra, torna-se escolha. Poucos livros infantis alcançam tal profundidade com tão cativante simplicidade.
A grandeza de Josemir Lemos não se encerra nas páginas impressas. Ele próprio realiza palestras, mediações e contações de histórias em instituições de ensino, levando a obra ao encontro direto de seu público. Assim, o escritor completa o ciclo da criação: não se limita a publicar, mas habita o livro com a voz, o gesto e a presença, e converte cada apresentação em celebração da leitura.
Tal atuação é preciosa em um país que ainda carece de políticas e de hábitos consistentes de formação leitora. Cada criança que ouve a história de viva voz e dela participa torna-se candidata a leitora vitalícia. O autor independente, que não conta com os grandes aparatos editoriais, supre-os com a força da dedicação pessoal e com a autenticidade de quem acredita naquilo que faz.
A indicação ao Prêmio Literário ECOS da Literatura 2025 não é acaso, mas reconhecimento justo de um trabalho em que convergem sensibilidade pedagógica, imaginação criadora e compromisso com a infância. Josemir Lemos prova que a literatura nasce, muitas vezes, do ofício mais humilde e mais nobre: o de ensinar. De um punhado de lã e de uma sala de aula, fez surgir um planeta inteiro, povoado de números, de afetos e de estrelas.
Que seu exemplo inspire educadores e escritores a escutar a voz que habita o cotidiano, e que Os Dez Monstrinhos siga a viajar, de escola em escola, de coração em coração, ensinando aos pequenos que o silêncio é uma forma de respeito e que, no universo das boas histórias, nenhum monstro é tão temível quanto a indiferença.